Após mais de 26 anos de negociações, a União Europeia aprovou provisoriamente, nesta sexta-feira (9), o acordo comercial com o Mercosul, abrindo caminho para a assinatura formal do tratado na próxima segunda-feira (12), no Paraguai. A decisão, confirmada por diplomatas ouvidos pelas agências AFP e Reuters, cria a maior área de livre comércio do mundo e amplia o acesso do Brasil a um mercado de cerca de 451 milhões de consumidores. O impacto, no entanto, vai além do agronegócio e deve atingir diretamente a estrutura contábil, fiscal e comercial das empresas brasileiras que pretendem operar com o bloco europeu.
Para Jhonny Martins, contador e advogado, vice-presidente do SERAC, o acordo inaugura uma nova etapa de exigência para as companhias nacionais. “Não se trata apenas de vender mais para a Europa. O acordo força as empresas a revisarem desde a formação de preços até controles contábeis, compliance fiscal e padrões de reporte financeiro. Quem não se organizar, fica de fora”, afirma.
Segundo dados da Comissão Europeia, o comércio entre União Europeia e Mercosul movimenta atualmente cerca de € 110 bilhões por ano. Do lado brasileiro, a União Europeia já é o segundo maior parceiro comercial, respondendo por aproximadamente 15% das exportações do país, conforme números do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Com a redução gradual ou eliminação de tarifas, a expectativa é de aumento da competitividade de produtos industriais e manufaturados, além do agronegócio.
Impactos diretos na contabilidade e nas vendas
Na avaliação de Martins, o principal efeito imediato para as empresas será a necessidade de profissionalizar a gestão financeira e contábil. “O mercado europeu exige rastreabilidade de custos, clareza na composição de preços e aderência a normas internacionais. Isso muda a lógica de muitas empresas brasileiras que ainda operam com contabilidade voltada apenas ao cumprimento fiscal”, observa.
O acordo prevê regras comuns para comércio de bens, investimentos e padrões regulatórios, o que tende a pressionar companhias brasileiras a adotarem práticas alinhadas a normas internacionais, como IFRS, além de controles mais rigorosos sobre origem de produtos, sustentabilidade e governança. “Empresas que já têm relatórios bem estruturados, separação clara de custos e planejamento tributário saem na frente”, diz Martins.
Do ponto de vista comercial, a abertura do mercado europeu amplia oportunidades, mas também aumenta a concorrência interna. Estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que o acordo pode elevar o PIB brasileiro em até 0,4% no longo prazo, com ganhos concentrados justamente em setores com maior capacidade de adaptação a exigências técnicas e regulatórias.
Como as empresas podem se preparar
Para aproveitar o novo cenário, especialistas apontam que a organização interna será decisiva. Martins destaca três frentes principais. “A primeira é revisar a estrutura de custos e precificação, porque competir na Europa exige margem bem calculada. A segunda é investir em compliance contábil e fiscal, reduzindo riscos de autuações e barreiras comerciais. A terceira é estruturar processos de vendas internacionais, com contratos, câmbio e planejamento financeiro integrados”, explica.
Segundo levantamento do Banco Mundial, diferenças regulatórias e falhas de conformidade respondem por até 15% do custo adicional de exportação para mercados desenvolvidos. “O acordo reduz tarifas, mas não elimina a complexidade operacional. A contabilidade passa a ser estratégica, não apenas operacional”, afirma o executivo.
Por que a negociação demorou tanto
As mais de duas décadas de negociações refletem resistências políticas e econômicas, sobretudo de países europeus com forte setor agrícola. França e Irlanda lideraram a oposição ao tratado, alegando riscos de concorrência com produtos latino-americanos mais baratos e com padrões ambientais distintos. Na véspera da votação, o presidente francês Emmanuel Macron voltou a criticar o acordo, classificando seus benefícios como limitados para a economia europeia.
A sinalização favorável da Itália, após a Comissão Europeia indicar a liberação de € 45 bilhões em apoio aos agricultores, foi considerada decisiva para destravar o processo. Com isso, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, ficou autorizada a assinar o tratado.
Para o Brasil, o acordo representa uma oportunidade histórica, mas condicionada à capacidade de adaptação das empresas. “O tratado não é um atalho. Ele premia quem já está organizado ou quem decidir se estruturar agora. A contabilidade, nesse contexto, deixa de ser bastidor e passa a ser protagonista da estratégia de crescimento”, conclui Jhonny Martins.
Sobre o SERAC & BHub
O SERAC é referência nacional em contabilidade, educação e gestão corporativa e BHub, startup especializada em soluções tecnológicas de backoffice. Com mais de 10 mil clientes e presença em todo o território nacional, essa união visa transformar o setor contábil por meio de automação, formação e parcerias estratégicas. Instagram: @sou_serac ou pelo site souserac.com.
Sobre Jhonny Martins
Jhonny Martins é contador e advogado pela PUC-SP com especialização em Direito do Trabalho pela Faculdade de Direito Damásio de Jesus, com MBA em Gestão Empresarial pela FGV-SP e MBA em Gestão Tributária pela USP. É vice-presidente do SERAC, um hub de soluções corporativas. Instagram @jhonnymartins
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