16 de janeiro de 2019
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EXCLUSIVO: “É preciso derrubar o muro de ignorância entre Brasil e Estados Unidos”, diz Olavo de Carvalho

EXCLUSIVO: “É preciso derrubar o muro de ignorância entre Brasil e Estados Unidos”, diz Olavo de Carvalho

Por Davi Lemos (dvlemos@gmail.com)

O filósofo, professor e escritor Olavo de Carvalho, 71 anos, é o principal pensador da direita brasileira e é apontado pela maioria dos conservadores que apoia o presidente eleito Jair Bolsonaro como o responsável pela quebra da hegemonia esquerdista que possibilitou a vitória do capitão da reserva do Exército. Nesta entrevista ao NewsBA, Olavo diz que é necessário romper a barreira de ignorância criada nos últimos 20 anos entre Brasil e Estados Unidos.

Residente nos EUA desde 2005, Olavo ressaltou em vídeo publicado nesta semana que o único cargo que aceitaria no governo Bolsonaro seria o de embaixador do Brasil nos EUA; ele também disse que fora convidado, ainda antes da eleição, para ser ministro da Educação ou da Cultura, mas que não aceitaria por reconhecer suas limitações. O filósofo também diz que a esquerda não está morta, pois ela “ainda domina a mídia, as universidades e o show business – o orbe praticamente inteiro da ‘cultura'”.

NewsBA – Professor Olavo, como o senhor vê o resultado das eleições? Tivemos a vitória de Bolsonaro, mas também a eleição de um parlamento com nomes conservadores e liberais. Como o senhor vê essa vitória? Ela marca o fim da hegemonia da esquerda?
 
Fim, ainda não. O governo é apenas a expressão legal e oficial do poder, mas o poder é uma rede de relações que vai muito além dele e se espalha por inúmeros canais de ação e meios sociais. A esquerda ainda domina a mídia, as universidades e o show business – o orbe praticamente inteiro da “cultura”. Se não nos esquecemos de que foi dominando a cultura que a esquerda acabou subindo ao governo, entendemos que, se não for desprovida da sua hegemonia cultural, a esquerda pode voltar ao governo federal amanhã ou depois.

NewsBA – Vimos também resultados emblemáticos em Minas Gerais, Rio de Janeiro e em São Paulo. O João Dória, por exemplo, elegeu-se, mas a contragosto da velha cúpula tucana e aproximando-se do discurso de Bolsonaro. É o fim do tucanato? O PSDB também foi derrotado em Minas.

O tucanismo foi apenas um instrumento provisório criado para dourar a pílula e facilitar a ascensão dos comunistas. No contexto esquerdista ele talvez ainda tenha um papel a cumprir, mas muito diminuído. Mais no futuro, ele terá que romper o compromisso com a esquerda e bolsonarizar-se de vez.

NewsBA – A reação dos petistas e dos demais membros dos partidos e movimentos de esquerda tem sido muito forte, até violenta: uma clara rejeição ao resultado das urnas. Essa reação da esquerda já era esperada, mas o senhor acredita que essa esquerda não tucana voltará a ter a relevância que tinha quando era oposição aos governos Sarney, Collor, Itamar e FHC? 
 
Existe violência premeditada, racional, e existe a explosão emocional sem sentido. É esta a que estamos vendo, e não aquela. As explosões de cólera do PT mostram que seus líderes não entenderam nada do que se passou e estão gritando para as paredes. O que ainda mantém a esquerda viva são os cargos que ela conquistou na mídia, no ensino, no show business, no funcionalismo público ao longo dos anos e que ainda estão nas mãos dela. É uma espécie de poder residual, que serve para fazer um certo agito durante algum tempo, e talvez para boicotar algumas medidas do governo, mas que tende a se diluir à medida que os anos vão passando e o ridículo das previsões apocalípticas sobre o governo Bolsonaro for se demonstrando aos olhos de todos.

NewsBA – O Nordeste deu expressiva votação a Fernando Haddad. Como o senhor interpreta o cenário nordestino?
 
Coronelismo, compra de votos, Fome Zero e fraude eleitoral – quatro nomes da mesma coisa.

NewsBA – A oposição ao presidente eleito Jair Bolsonaro parece que insistirá nos discursos de que ele seja fascista, racista, ditador, etc. Como o senhor entende que devam ser as respostas a esses ataques? Bolsonaro também entrou em rota de colisão com a Folha de São Paulo. Isso não pode reforçar o discurso de que ele seja contra a imprensa?
 
Ficará difícil sustentar estas acusações à medida que as próprias ações do governo Bolsonaro vão contrastar com elas da maneira mais acachapante. Tudo isso foi uma tagarelice eleitoral irresponsável e criminosa. Não creio sequer que a mídia possa continuar insistindo nesse vocabulário, que fora do assanhamento de uma campanha eleitoral assumirá uma aparência francamente delituosa e arriscará atrair sobre seus usuários as penas da lei. Os órgãos de mídia já perderam quase toda a sua credibilidade graças a sua verbosidade histérica e abuso das fantasias difamatórias. Ou esses órgãos de mídia aprendem a refrear as suas paixões insanas ou vão perder o restinho de credibilidade que ainda têm. Quanto à briga com a Folha de S. Paulo, qualquer briga em que esse jornal decrépito se meta, ele perderá. Se um periquito arrumar briga com ela, a Folha, ele vence.

NewsBA – A maioria dos analistas e especialistas da imprensa e da academia brasileiras não compreendeu o fenômeno Bolsonaro. O senhor e analistas como o Filipe G Martins apontaram a vitória de Bolsonaro há muito tempo. O que gerou essa dificuldade de leitura do cenário pela academia e pela imprensa?
 
A total ignorância da ciência política. Há pelo menos duas gerações não se encontra nas universidades brasileiras um só estudioso sério que tenha meditado as lições de ciência política de Platão e Aristóteles, sem as quais toda pretensão de ciência política é uma bolha de sabão. Eu as meditei e ensinei a meditá-las. Resultado: Nos últimos anos, tivemos o monopólio da compreensão do estado de coisas. Em volta, jornalistas, acadêmicos e palpiteiros em geral deram um monstruoso show de inépcia. Nós estudamos para valer. Esses carinhas só vivem de auto hipnose e tentam hipnotizar os outros. Se você quer fracassar, siga-os. Tipos como FHC, Jô Soares ou Reinaldo Azevedo são inteligências conservadas em formol.

NewsBA – O senhor há anos vem formando uma nova elite intelectual no Brasil, abrindo espaço para autores conservadores que estão frequentemente entre os mais vendidos. Entretanto esses novos pensadores, com raríssimas exceções, estão ainda fora da academia e da imprensa. O senhor entende ser fundamental essa tomada (ou retomada) de espaços?

O ingresso da legião dos meus alunos nos altos postos da universidade é interesse da universidade, não deles. Eles farão o seu serviço e o farão com sucesso, dentro e fora das universidades. Elas é que terão de aprender com eles, se quiserem sobreviver. O descrédito geral já as atingiu. É melhor elas tomarem jeito e começarem a aprender com quem sabe.

NewsBA – Numa entrevista que o senhor me concedeu em 2015 para o jornal A Tarde, aqui de Salvador, o senhor afirmou que seria necessário impor o debate à força. Mas há na esquerda ainda hegemônica disposição para o debate? O senhor vê mudança no cenário de três anos para cá? A eleição de Bolsonaro pode influir nisso?
 
Há anos eles fogem do debate porque sabem que são uns incompetentes, uns coitadinhos, uns farsantes. Só o que eles sabem fazer é instigar meninos ignorantes para que saiam gritando, batendo, esperneando. A universidade brasileira é uma instituição ridícula, deplorável. Não tenho satisfações a dar a essa gente.

NewsBA – Voltando à avaliação do pré-governo Bolsonaro, como o senhor vê a indicação do juiz Sérgio Moro para o ministério da Justiça? A esquerda diz que essa é a prova de que Moro é um juiz parcial.

Isto quer dizer que todos os que aceitaram cargos no governo Lula eram todos parciais também. Esse argumento é tão imbecil que só poderia vir do imbecil coletivo.

NewsBA – O Brasil ainda figura nos últimos lugares em índices como o Pisa, que medem o desempenho em leitura, ciências e matemática. Que caminho o senhor indicaria para o governo Bolsonaro para resolver esse cenário trágico?

No meu entender, todos os ministros da educação dos últimos quarenta anos são criminosos. Os testes do ensino secundário não revelam o mais grave. Os testes no ensino secundário não são o pior. O pior são os cinquenta por cento de analfabetos funcionais que as universidades despejam no mercado. Como isto já vem durando há uma década e meia, é patente que hoje há algo entre quarenta e setenta milhões de analfabetos funcionais trabalhando nas funções superiores – são professores, médicos engenheiros, deputados, jornalistas, juízes – armando uma confusão dos diabos e tornando insolúveis todos os problemas. Essa gente vem desgraçando o povo brasileiro. Não creio exagerar nem um pouco quando digo que essas instituições que criaram essa situação não são apenas incompetentes, são criminosas.

NewsBA – O senhor falou anteontem que aceitaria o cargo de embaixador nos Estados Unidos. Mas, após os governos petistas, houve uma deteriorização das relações do Brasil com os países civilizados, com as democracias consolidadas como os EUA. De que forma o senhor, sendo ou não embaixador, avalia um retorno ao fortalecimento dessa relação com os EUA?

As relações entre dois países não começam no nível diplomático, começam no nível cultural e jornalístico. A primeira coisa que tem que fazer é derrubar o muro de ignorância que nos últimos 20 anos se ergueu entre Brasil e Estados Unidos. Quando você lê o que a mídia brasileira diz sobre os Estados Unidos e o que a mídia americana diz sobre o Brasil, é uma coisa de uma ignorância atroz, ninguém sabe porra nenhuma. Essa é a primeira barreira que se tem que derrubar.

NewsBA – Aqui no Brasil, por exemplo, o que chega pelas mídias nacionais sobre os Estados Unidos é geralmente cedido por CNN e outros veículos mais ligados à esquerda.

Aqui nos EUA, há uma divisão muito clara entre esquerda e direita no jornalismo. A direita tem o rádio, que é o veículo mais popular, que atinge o povão e a esquerda tem os grandes jornais e a televisão. Sempre foi assim. Só que é o seguinte: o rádio americano não chega ao Brasil; então o brasileiro só recebe a versão da esquerda chique.

NewsBA – A única que chega aqui é a Fox News, mas mesmo assim é em TV fechada…

A Fox News não é de direita. É de uma linha moderada; é menos mentirosa que os outros. Só isso.




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