3 de dezembro de 2021
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Maestro Letieres Leite morre aos 61 anos em Salvador

Maestro Letieres Leite morre aos 61 anos em Salvador

A vida perdeu um dos seus mais dignos representantes”, foi assim que Caetano Veloso descreveu a morte do maestro e compositor Letieres Leite nesta quarta-feira (27). A informação foi confirmada pela produção do artista, que não deu detalhes sobre a causa da morte. .

“Conversar com ele era ganhar uma aula sobre claves rítmicas e gostos harmônicos. Estou arrasado com a notícia de sua morte. Ele era muito próximo. Ensinou meu filho Zeca a surfar, quando ele era menino. A música baiana, a música brasileira, a música perdeu hoje um dos seus maiores formadores. A vida perdeu um dos seus mais dignos representantes”, escreveu o cantor baiano.

Letieres dos Santos Leite nasceu em Salvador e tinha 61 anos. Ele era arranjador, compositor, instrumentista e estava à frente do Instituto Rumpilezz, mesmo nome da orquestra que criou em 2006.

Obituário – A maestria de Letieres dos Santos Leite (8 de dezembro de 1959 – 27 de outubro de 2021) foi singular no âmbito da música brasileira e mundial.

Em essência, ao formar em 2006 a Orkestra Rumpilezz, o maestro, arranjador, percussionista, saxofonista, educador e compositor soteropolitano inovou ao fundir o percussivo universo afro-brasileiro da música da Bahia com a linguagem do jazz.

Foi a dinâmica inusitada desse som efervescente que fascinou artistas exigentes como Ed Motta e fez Letieres Leite ganhar desde então prestígio crescente no universo da música brasileira.

Até por isso, músicos do Brasil entraram em choque na tarde de hoje com a notícia da morte inesperada e até o momento inexplicada desse artista nascido há quase 62 anos em Salvador (BA), cidade que sediou a revolução musical capitaneada por Letieres como condutor da Rumpilezz, big band de percussão e sopros cujo nome aludia à fusão do jazz com os três atabaques (rum, rumpi e lé) percutidos no Candomblé.

Com a Rumpilezz, o músico e maestro gravou dois álbuns, Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz (2009) e A saga da travessia (2016).

Ainda inédito, o terceiro álbum da Rumpilezz é a recriação com sotaque afro-baiano do repertório do álbum Coisas (1965), obra-prima da discografia do compositor, saxofonista, arranjador e maestro pernambucano Moacir Santos (1926 – 2006) – proeza que a Orkestra fez primeiramente em shows.

Letieres Leite e Maria Bethânia no estúdio, em 2018, na gravação do disco ‘Mangueira – A menina dos meus olhos’ — Foto: Reprodução / Instagram Letieres Leite

Paralelamente, o maestro sempre esteve à frente do Letieres Leite Quinteto, formado em 2009 com os músicos os músicos Luizinho do Jêje (percussão), Ldson Galter (contrabaixo), Marcelo Galter (teclados) e Tito Oliveira (bateria).

A ideia de Letieres com o quinteto era fazer e tocar, com formação mais reduzida, música instrumental de inspiração afro-brasileira sob a regência do jazz – o som que Letieres fazia em maior escala com a Rumpilezz. O Letieres Leite Quinteto teve o primeiro álbum, O enigma Lexeu, lançado em 2019.

Um ano antes, em 2018, o maestro foi convidado a criar arranjos para o álbum Mangueira – A menina dos meus olhos, lançado por Maria Bethânia em dezembro de 2019. Os arranjos de Letieres deram grandeza a um álbum a rigor menor na discografia da cantora. O trabalho com Bethânia acabou se estendendo para a criação de arranjos do show Claros breus (2019) e do álbum Noturno (2021).

Cada vez mais requisitado por cantores, Letieres está presente no recém-lançado álbum de Caetano Veloso, Meu coco (2021), como arranjador da música Pardo (Caetano Veloso, 2019).

Antes, entre 2019 e 2020, deu forma ao também recém-editado quinto álbum de Marcia Castro, Axé (2021), como produtor musical (função dividida com Lucas Santtana) e arranjador, orquestrando músicas do disco a partir de toques de synth bass, guitarras e teclados. Era um arranjador que valorizava a funcionalidade do arranjo.

Apaixonado pelos sons e santos de Salvador (BA), Letieres por vezes saiu da Bahia sem tirar o estado natal da alma musical.

Em 1981, o artista iniciante migrou para o sul do Brasil, região onde integrou alguns grupos, como Abelha Rainha e Banda de Nêutrons. Em 1985, foi estudar no Konservatorium Franz Schubert, em Viena, na Áustria, pais onde morou por quase dez anos.

De volta ao Brasil, em 1994, Letieres se assentou na terra natal e, já como educador, montou a Academia de Música da Bahia, escola que – enquanto o músico ganhava o pão tocando com a cantora Ivete Sangalo – serviu de laboratório para as pesquisas do artista.

Anos mais tarde, os experimentos dessas pesquisas desembocaram no som inovador da Rumpilezz, orquestra com o qual o maestro Letieres dos Santos Leite mostrou maestria e galgou postos, ocupando lugar nobre na galeria dos criadores da música do Brasil.




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