Nesta quarta-feira (17), a Câmara Municipal de Salvador realizará às 18h, no Plenário Cosme de Farias, sob a condução conjunta dos vereadores Sílvio Humberto (PSB) e Marta Rodrigues (PT), uma sessão especial em homenagem ao centenário e a trajetória de uma das lideranças religiosas mais emblemáticas da Cidade Baixa, Mãe América Cabral, Oyá Kaloyá (in memoriam).
Yalorixá e guardiã da memória de Salvador, Mãe América fez de sua vida um exercício de fé e resistência comunitária. À frente do Terreiro Ilê Axé Ogunjá Tiluaê Orubáia, transcendeu o papel de sacerdotisa para se tornar uma ativista de direitos na região da Massaranduba.
Mãe América foi protagonista na conquista de serviços essenciais para as famílias da Cidade Baixa, tendo como decisiva sua atuação política e social para a instalação da rede de energia elétrica, ligação da rede de esgoto e a chegada da água encanada nas comunidades. Seu compromisso com a educação também foi um marco, sendo peça fundamental na inauguração da Escola Ocridalina Madureira, em 1965.
Um dos legados mais vigorosos de Mãe América foi sua capacidade de diálogo inter-religioso, mantendo relações próximas com nomes como Irmã Dulce e lideranças católicas dos Centros Sociais dos Alagados. Sua voz pautou o combate à intolerância religiosa e a defesa intransigente das periferias.
Além da luta social, Mãe América foi uma fomentadora cultural nata. Foi patrona do Afoxé Tenda de Olorum, um dos primeiros blocos afro da Cidade Baixa, e zeladora do ofício de baiana de acarajé. Sua importância foi reconhecida com prêmios como o Mestres Populares da Cultura (2006) e o Troféu Zeferina (2007).
A vereadora Marta Rodrigues, presidenta da Comissão de Reparação, destaca que a homenagem à Mãe América representa um reconhecimento à contribuição histórica das lideranças negras e das religiões de matriz africana para a construção da identidade da capital baiana.
“Estamos falando de uma mulher que dedicou sua vida à defesa da sua comunidade, à preservação da ancestralidade africana e ao fortalecimento das tradições que ajudam a construir a alma de Salvador. Mãe América transformou sua liderança religiosa em uma ferramenta de luta por direitos, dignidade e inclusão social. É fundamental que a Câmara Municipal reconheça e celebre personalidades que mantiveram viva a memória, a cultura, a espiritualidade e os valores ancestrais do povo negro.”
A vereadora também destaca o papel social desempenhado pelo Terreiro Ilê Axé Ogunjá Tiluaê Orubáia ao longo das décadas. “O legado de Mãe América ultrapassa os limites do terreiro. Sua atuação ajudou a transformar a realidade da Cidade Baixa e fez daquele espaço um importante ponto de acolhimento, solidariedade e organização comunitária. Ali foram desenvolvidas ações sociais que beneficiaram inúmeras famílias e que, muitas vezes, ajudaram a suprir ausências do poder público municipal.”
Para o vereador Sílvio Humberto, celebrar Mãe América é um ato de justiça histórica e de fortalecimento das bases democráticas da cidade. “Celebrar Mãe América é afirmar a centralidade da mulher negra na história política e social de Salvador. Ela foi uma intelectual orgânica do nosso povo, que compreendeu antes de muitos que o direito à cidade passa pela dignidade da infraestrutura e pelo acesso à educação. Ela nos ensinou que as comunidades de matriz africana não apenas resistem, elas constroem o futuro e a urbanização da nossa cidade a partir do senso de coletividade”, ressalta o parlamentar.
O vereador aponta ainda que resgatar essa trajetória em uma sessão especial é uma ferramenta política crucial no cenário atual. “Trazer a memória de Oyá Kaloyá para a Casa do Povo é também um manifesto contra o racismo religioso que ainda tenta invisibilizar a nossa história. O Ilê Axé Ogunjá Tiluaê Orubáia funcionou e funciona como um pólo de tecnologia social e humanidade. Seu legado ecoa como o vento de Oyá, varrendo as injustiças e nos lembrando que a política institucional também se faz com axé, com o princípio do cuidado e com a coragem de quem veio antes”, pontua Sílvio Humberto.
Nascida em 19 de fevereiro de 1926, em Salvador, Mãe América faleceu em 6 de outubro de 2008. Desta forma, se viva, completaria 100 anos em 2026.
Serviço:
O que: Sessão Especial pelo Centenário de Mãe América Cabral, Oyá Kaloyá (in memoriam)
Data: 17 de junho
Horário: 18h
Local: Plenário Cosme de Farias, Câmara Municipal de Salvador
Foto: Divulgação







