31 de maio de 2020
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“Toca Raul” – por Pacheco Maia

“Toca Raul” – por Pacheco Maia

Raul Seixas. A lembrança mais remota que tenho dele é do início dos 70. Devia estar na casa dos sete anos.

O veraneio era em Itapuã. Vinícius ainda morava por lá.

Recordo de uma noite de lua cheia que os mais velhos nos levaram lá no Farol, onde ficava a residência do poetinha.

Era quase um ponto turístico com seu estilo arquitetônico moderno naquele ermo.

Então, a reminiscência raulseixista tocava num rádio naquele passado já remoto.

Ouro de Tolo era hit nas emissoras de rádio da época, que só transmitiam em AM, sem o estéreo e a alta fidelidade. Chegariam alguns anos depois com o FM.

De algum rádio próximo, naquele dia nublado do verão de 73 ou 74, que não permitiu ir à praia naquela manhã, eu ouvi:

“Saber que é humano, ridículo, limitado
E só usa 10% de sua cabeça, animal
E você ainda acredita que é um doutor, padre ou policial
Que está contribuindo com sua parte
Para nosso belo quadro social”

Os versos daquela canção entraram para sempre na minha cabeça.

Vivíamos ainda os tais Anos De Chumbo da ditadura militar.

Se, de um lado, tocava música romântica e, do outro, canções metaforicamente engajadas, ali estava a reflexão de um indivíduo, bem simples e clara, sobre o que estava acontecendo de forma bem pessoal, falando na primeira pessoa.

Quando associei a voz à imagem, ao vê-lo na tevê, percebi naquele sujeito magrelo uma identidade comigo.

Eu era um moleque chato, acho que até mais do que hoje. Já na tenra idade, era sempre do contra e, embirrento com um monte de coisas. Só comia o que gostava e fazia o que estava a fim. Não tinha essa de agradar ninguém. Era um nojento.

Tenho que reconhecer, evoluí pra caralho.

Mas entre eu e Raul nascia ali o meu reconhecimento de que não estava sozinho no meu mundo de ideias que já pululavam naquele cérebro em expansão.

Ideias de chato que não dar gargalhada porque todo mundo tá gargalhando. Que ficava pensando de como seria a vida na próxima Copa do Mundo.

Na de 74, eu ainda tinha oito, mas sonhava que, na de 82, estaria com 12, e, quem sabe, teria capacidade de conquistar alguma garota e sentir o sabor de um beijo na boca de verdade.

Não aquelas coladas sem graça de quando se brincava de médico ou de pai e mãe.

E o tempo foi passando. Descobri que o Maluco Beleza nascera e vivera até parte da juventude na mesma cidade que eu.

Passei a ouvir tudo dele e a pesquisar sobre sua vida. Conhecer mãe, amigos e contemporâneos. Também a divulgar seu pensamento e obra, aproveitando-me de ser jornalista e radialista.

Raul era um ponto fora da curva da Bahia e, por isso, engrandece ainda mais este lugar que não precisa ser tão alegria, alegria. Precisa também de pensamento, reflexão e rock and roll.

Toca Raul!!!

Pacheco Maia é jornalista.




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